The Savages

por Luis Galvão

The Savages
Lidar com a morte não é algo fácil. Quando a morte já é dada como certa e incluiu, principalmente, sua família, as coisas complicam ainda mais. É basicamente esse o mote para todo trabalho Tamara Jenkins com esse belo filme de 2007. Dois irmãos compartilhando dos últimos momentos com o pai em estado de demência.

Depois de apresentados rapidamente à rotina de Wendy (Laura Linney), vemos ela recebendo uma ligação dizendo que seu pai (Philip Bosco) está com a saúde ainda mais abalada e tem que ser transferido da casa de repouso que morava com uma namorada – que acabara de falecer enquanto pintava as unhas. Ela, uma típica balzaquiana solitária com um caso com um homem casado, que sonha em ser escritora mas tem seu trabalho rejeitado várias vezes, convoca seu irmão Jon (Seymour Hoffman) – Ph.D. e professor de teatro dramático bem sucedido profissionalmente – para juntos tentar dar o fim digno ao pai, seja em um asilo ou em uma casa de repouso.

Daí, todo o trama se desenvolve com a relação entre os irmãos tão semelhantes, mas com convicções tão diferentes. E isso só se torna palpável graças a química entre Philip e Laura. Ambos têm momentos tão mágicos e únicos que por si só já valem por todo o filme. Porém, o roteiro de Jenkis é tão bem construído, que todas as possibilidades de confrontos são realizadas de forma única.

Às vezes algum arco dramático não é tão explorado quantos outros (o que não chega a ser um incômodo), mas todos os pequenos fragmentos de históricas de cada personagem constroem a personalidade e despertam a empatia do espectador. Surpreendente ver que em apenas alguns minutos, passamos a poder enxergar com clareza todos os passos dados pelos irmãos e como eles se comportam perante a morte.

Esse cuidado é tão grande que os detalhes, quando observados, nos dão pistas sobre o roteiro. Na cena de Wendy vai ao asilo buscar seu gato, ela senta em uma sala com o enfermeiro e você lê rapidamente o pôster atrás de diz muito sobre o que vem a acontecer depois (‘Every day is a new day’). Ou quando alguns fatos ocorrem e outra trama surge no final para fazer uma ponte com os sentimentos de Wendy.

O trabalho termina, assim, trazendo grandes reflexões sobre como lidar com a morte na velhice e constrói todo esse retrato de forma perfeita. Se não bastasse tudo isso, Família Savage ainda nos brinca com a utilização mais correta de metalinguagem teatral que se pode imaginar.

Família Savage de Tamara Jenkis

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