Melancolia

por Luis Galvão

Depois do burburinho gerado pelos motivos errados, fui assistir Melancolia com boas expectativas. E não me frustrei. A trama, concentrada em duas irmãs (uma no dia do casamento e outra que atuou nos bastidores da festa), se expande sem que possamos perceber, principalmente na segunda parte do filme. O que seria um filme sobre as escolhas da vida (representada pelo Casamento), se transforma em um drama sobre a própria existência e as motivações de continuarmos a existirmos.

Um terceiro corpo, que não tinha, até então, se mostrado importante para a história, se manifesta como uma metonímia para muitas coisas. Coisas até demais, é verdade, porém os anseios, os medos e as frustações estão por lá.

Concentrado nisso tudo, Lars von Trier se muniu de bons artifícios narrativos já presentes em suas antigas obras para desenhar todo esse quadro negro sobre as forças naturais a que o homem está sujeito. Charllotte e Kristen desempenham papéis que falam menos e agem mais, um trabalho complexo de introspecção para qualquer artista. Kiefer Sutherland também é um destaque, compreendendo os aspectos mais técnicos da vida e dando devida importância para alguns atos.

Se tudo isso não passasse de mais um devaneio do diretor (o que era muito provável de acontecer), Melancolia se tornaria um filme perdido em seu próprio dilema. No entanto, Lars se colocou no posto de direcionador das tramas e costurou como um exímio mestre todas as tomadas, todas as músicas e todas as atuações.

Melancolia de Lars von Trier