edifício master

por Luis Galvão

imageMesmo não sendo a obra máxima de Eduardo Coutinho, Edifício Master pode ser considerado um arranjo inovador para os documentários brasileiros. Não que a estética seja nova (ele mesmo já realizou obras semelhantes), mas que o contexto e o trabalho por trás da câmera foram feito para surpreender com coisas simples.

Sete dias alugados em um apartamento no famoso, antigo e cartão-postal Edifício Master, Eduardo Coutinho e sua equipe primeiro fazem um garimpo com os quase quinhentos moradores, depois seleciona trinta e sete histórias para colocar nos cento e um minutos de filmes corridos, transpassados por imagens de janelas, apartamentos mobiliados, corredores estreitos e planos silenciosos.

Se apegando mais aos personagens do que às histórias, Edifício Master tem a difícil proeza de empolgar com fatos anônimos. São histórias simples, banais. Brigas de casais, prostitutas, jovens que engravidaram cedo, velhos que se encontraram pela internet, compositores (a música é quase uma recorrente em todo o filme). Enfim, histórias que separadamente talvez não significassem nada, mas que no conjunto, estabelece pontes invisíveis entre os diversos personagens sempre em busca de algo para – de certa forma – completar a vida, ou achar um sentido para ela.

Mesmo que o próprio Coutinho tenha dito que a montagem das entrevistas pode ser aleatória (não existe uma linha cronológica ou temática que une as cenas), é possível enxergar um pouco das diversas coincidências emotivas do longa. Esse preenchimento do vazio individual – que seja completado pelo amor de outra pessoa ou pela vinda de um filho ou pela formação acadêmica – percorre quase um ‘ato’ inteiro do filme.

Depois vem a solidão. Ou a anti-solidão, pois nenhum dos entrevistados, mesmo que moram sozinhos há tempos, se sentem só. Talvez seja o mistério de Copacabana de ser tão amistosa, ou a convivência quase que diária com pessoas tão diferentes no mesmo prédio. A solidão passa longe das cenas, mesmo que Coutinho às vezes tente pregar isso (mostrando as portas se fechando umas de frente para outras, sem nunca estarem abertas).

Ainda tem a violência. Falar do Rio  de Janeiro, ou Copacabana, sem falar em assaltos ou o medo recorrente no filme é quase um assombro. No mínimo três histórias são sobre furtos relâmpagos e as consequências nas vidas dos entevistados – a de uma senhora que foi enganada com uma sacola cheia de papel picado e chora ao lembrar disso é bem bolada e nos leva a reflexão.

Quando visto pela primeira vez, Edifício Master se torna quase um exercício Junguianos de tipos psicológicos (os introvertidos, os sentimentais, os intuitivos), afinal, como qualquer ser humano, sempre é bom ouvir a história do outro, mesmo que em momento algum você consiga interagir com ela. Pelo menos literalmente, porque no inconsciente, sempre você vai tentar formar uma opinião sobre o tema em debate. E isso é o charme, o segredo e a genialidade de Coutinho, a interação à distância. MUBI