Um Doce Olhar (2010)

por Luis Galvão

Bal1 quatro estrelas

Em um rápido retrospecto, é de se admirar a coragem do Festival de Berlim em premiar com o Urso de Ouro filmes aparentemente tão distintos. A Teta Assustada, Tropa de Elite, O Casamento de Tuya, até mesmo A Viagem de Chihiro já ganharam tal reconhecimento. O filme turco que levou esse ano é o introspectivo ‘Um Doce Olhar’ que consegue, em uma interpretação essencial do Bora Altas, conquistar pelos seus detalhes.

No longa, Bora é Yusuf (personagem recorrente na trilogia do diretor Semih Kapanoglu), uma criança de seis anos que apresenta as dificuldades normais de um aluno começando a aprender a ler e escrever, mas que logo é ‘classificado’ como disléxico. Sua mãe é uma plantadora de chá e seu pai (Yakup) um apicultor que vivem perto de uma floresta. Nela, Yusuf e Yakup se aventuram a procura de novas colméias, até que um dia seu pai parte e nunca mais volta. O aspecto da perda é tratado com imparcialidade por trás das câmeras, mas se apresenta perfeitamente nas relações que serão construídas pelos personagens que restam. Filho e mãe, que antes não tinham proximidade, passam a conviver um com auxílio do outro para superar a partida do homem da casa.

‘Um Doce Olhar’ é formado por planos longos, pouca trilha, pouco diálogo, poucos closes. Porém, um visual belo e profundo que nos carrega ao longo do filme. É claro que não irá agradar as massas – o espectador não acostumado com esse estilo de cinema achará monótono e raso – contudo, quem souber aproveitar a utilização perfeita da técnica com a atuação soberba e minimalista de Bora Atlas, vai se deparar com um personagem profundo que será melhor estudado nos outros filmes de sua trilogia inversa (os filmes que retratam a juventude e a maturidade já foram lançados) e descobrir o que causou encanto no Festival de Berlim. Requer paciência e um pouco da sinestesia do título.

Um Doce Olhar (Bal, de Semih Kapanoglu)