Treme (Primeira Temporada)

por Luis Galvão

cinco estrelas

Uma série cinco estrelas em todos os sentidos. Treme veio das mentes geniais de Eric Overmyer e David Simon (criadores de ‘The Wire’). Com um projeto de acompanhar a vida dos habitantes de New Orleans logo após o furacão Katrina destruir boa parte da cidade. A reconstrução não apenas dos edifícios, casas e bares, e sim da cultura que sempre foi o grande diferencial do lugar e da sua música seja o jazz, blues, soul, funk, de rua ou orquestrada. A música é tudo em ‘Treme’.

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No primeiro episódio já é perceptivo o clima instável em que New Orleans está. Poucos meses após a devastação, muitos parentes ainda estão sumidos, muitos lares abandonados e o som que sempre foi a trilha sonora da cidade estavam silenciado. Conhecemos Ladonna (Khandi no melhor desempenho da sua vida), dona de um bar que tenta localizar seu irmão desaparecido desde o furacão, ela conta com a ajuda da advogada Toni (Melissa Leo utilizando toda sua experiência neste papel que cresce com a trama). Toni é uma mulher forte (assim como todas de Treme) e não abandona seus objetivos, é tanto que o desaparecimento do irmão de Ladonna envolve outros grandes conflitos diretos com a polícia, porém a advogada não se deixa abalar por algumas tentativas frustradas de encontrá-lo. A advogada é casada com Creighton (Goodman com momentos realmente inspiradores), um professor-escritor inconformado com a situação em que New Orleans se encontra e a falta de ajuda do governo – o momento Youtube é realmente um desabafo dos mais sinceros.

Outro que parece não desistir fácil de seus objetivos é o Chief (Clarke Peters, que já tinha trabalhado com Simons em The Wire há alguns anos), um líder representativo da comunidade que também fica inconformado com a situação da cidade e de seus habitantes, cada vez mais desiludidos.

Um dos alívios da série está na figura do DJ-Músico Davis (Steve Zahn, realmente um ótimo ator em qualquer situação), que é um verdadeiro entusiasta da cidade e que fará de tudo para reacender a música no cotidiano das pessoas. Ele tem um relacionamento com uma chefe de cozinha Janette (Kim Dickens, uma surpresa bastante agradável), que tenta a todo custo retomar com o sucesso de seu restaurante.

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Do lado dos músicos verdadeiramente new-orleanos, temos o casal de namorados Annie e Sonny (Lucia Micarelli belíssima e que toca incrivelmente bem e Michiel Huisman um pouco cafajeste demais) instrumentistas de rua que ganham seu sustento apresentando-se ao ar livre e fugindo dos que tentam impeli-los. Para completar, talvez um dos maiores protagonistas, temos Antoine Batiste(Wendell Pierce em uma atuação notável), um trombonista, ex-marido de Ladonna que procura um meio de se sustentar e continuar fazendo o que tanto ama: tocar.

A força de ‘Treme’ está em seu roteiro, que envolve desde os primeiros minutos com tramas paralelas – e que não necessariamente vão se encontrar no futuro – e na sua parte técnica. Poucas vezes uma cidade verdadeiramente devastada por um furacão retratada na TV, mas ‘Treme’ está aí para provar que é sim possível fugir de alguns clichês cenográficos e nos mostrar um trabalho verdadeiro de reconstrução da destruição. Cada casa, cada cômodo, cada detalhe nos deixa claro que um caos da natureza passou por ali. As atuações são todas acima da média, o que é incrível, já que estamos diante de um elenco com características bem diferentes e peculiares, mas que junto formam uma harmonia única.

Muito além de atuações principais, é importante ressaltar a força dos habitantes de New Orleans. A maioria não tem nome, endereço ou importância fundamental para história dos protagonistas, são simples habitantes que parecem realmente terem vividos no caos por algum tempo e vê sua cidade tão amada ressurgindo devagar e com pouca ajuda. Os desfiles nas ruas, os improvisos nos bares, a expressão de felicidade no rosto de cada pessoa que passa menos de dois segundo na tela é o que faz de ‘Treme’ uma série real. Tudo ali pode – e provavelmente deve – ter acontecido.

E como não falar da ‘gasolina’ que move todo esse motor? A música é a grande chave do uso adequado e simples de um artifício desprezado por muitos seriados. New Orleans respira música, respira jazz, R&B. Mas não aquela música milimetricamente ensaiada. É a música vinda do improviso, da rima mal feita, da boca do povo. E é essa música que transborda da tela e invade como um furacão nossa tela. Não tem como não se apaixonar por cenas como ‘Wait the Saint’s’ ‘This City’, ou o debochado ‘Shame, Shame, Shame’. É incrível como o bom uso da trilha alavanca toda a qualidade da série. Mais impressionante ainda é ver os atores tão bem escalados para cada personagem. Uma harmonia, e ao mesmo tempo uma descontração, que é impossível não gostar.

Quem liga para indicações ao Emmy, Globo de Ouro ou prestígio. Estamos falando de HBO, de David Simon, de New Orleans. O que poderíamos pedir mais que trambones, saxofones e trompetes aliados a violinos, piano e voz da forma mais harmônica e natural possível?

(Treme, 2010)