O Bem Amado (2010)

por Luis Galvão

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três estrelas

‘O Bem Amado’ é – sem dúvidas – um dos filmes brasileiros mais aguardados do ano. Seja por sua produção de estrelas globais ou por ser remake da famosa obra de Dias Gomes (que já foi encenada por grandes atores e adaptada para televisão de forma espantosamente lucrativa e memorável), o fato é que o pernambucano Guel Arraes tinha uma grande responsabilidade em mãos. Reavivar na mente das pessoas personagens clássicos da literatura brasileira, sem criar uma releitura mal feita de atores. Nesse aspecto, ele (com ajuda clara dos ótimos intérpretes) foi um mestre.

Porém, é impossível assistir ao longa e ao final não ficar com um pouco zonzo com tanta gritaria, cortes, cores, exageros e artificialidade. A narrativa, que por si só já é exagerada e divertidíssima, não precisava de tantos retoques cenográficos, nem que figurinos tão estereotipados, nem de trilha metalinguística. Acredito que Guel tentou uma linha meio Burton meio Bryan Fuller, mas misturá-los à comédia de costume de Dias não deu muito certo e tira até um pouco da graça do texto. Muito barulho por nada, e pouco para o que deveria ser a chave do sucesso. A crítica ferrenha à política, aos costumes regionais e ao charlatanismo ainda está presente, mas é impossível desfrutar da beleza irônica dos diálogos enquanto a câmera se move como se estivessem em uma briga de cães. Algumas cenas são tão ‘ágeis’ que não se consegue assimilar tudo, criando furos gigantes no roteiro.

Do elenco, é claro o destaque para Nanini que incorpora bem o Odorico Paraguaçu (e dando nuances diferentes do imortal Paulo Gracindo) e Wilker está ótimo como o Zeca Diabo. As Irmãs Cajazeira (Drica, Beltrão e Polessa ) são as que mais gritam, mas ainda assim convencem. Nachtergaele, Maria Flor, Caio Blat e Tonico Pereira também desempenham bem seus papéis, o problema é que não tem tempo em cena o suficiente para mostrar a profundidade de seus personagens (e quem assistiu à novela, sabe que eles tem muito mais a dar).

Falta a ‘O Bem Amado’ aquela simplicidade de ‘O Auto da Compadecida’. Entendo a necessidade de resumir horas e horas de tramas em exatos cem minutos, mas a opção escolhida para tal tarefa foi a pior possível. Mistura de narrativas (várias vozes narradoras descompassadas), passagens de tempos mal formuladas e tantos outros ‘artifícios’ utilizados com a finalidade de enxugar o tempo na tela, foram – talvez – a chave de toda decepção. Nem sempre uma enxurrada de informações é o melhor caminho, e Guel está aí para provar.

(O Bem Amado, Brasil, 2010) Diretor: Guel Arraes; Roteiristas: Guel Arraes e Cláudio Paiva; Elenco: Marco Nanini; José Wilker; Matheus Nachtergaele; Caio Blat