Palavra (En)cantada (2009)

por Luis Galvão

 

Em um País que se orgulha por sua diversidade sonora, estava faltando um documentário como este. ‘Palavra (En) Cantada’ é um arriscado e feliz projeto de Helena Solberg que se propõe a discutir as variantes da música e da poesia que embalam o povo brasileiro. Se tornando – antes de qualquer coisa – uma ode ao bom uso dos instrumentos e da palavra.

Assim como é explicado no documentário que João Gilberto fez um filtro e uma organização de todo o passado do samba e de certa forma ‘fez surgir’ a bossa nova. Helena fez algo parecido nesse filme e realizou uma obra que sabe dosar de forma perfeita depoimentos, releituras e imagens. Ela age como uma grande maestrina que rege todos seus convidados como uma bela sinfonia. Adriana Calcanhoto, Arnaldo Antunes, Chico Buarque, B Negão, Lirinha, Lenine e Tom Zé são apenas alguns nomes que vão discutir a gênese de muitos movimentos musicais brasileiros, tais como a Bossa Nova e a Tropicália. Intercalados com apresentações de outros grande nomes da indústria da música, é possível se emocionar, chorar e rir sem dificuldade.

A partir de um seleto garimpo de vídeos, a diretora montou um enorme mosaico de informações e criou um ambiente tão agradável, que é como se algumas daquelas personagens da história ainda estivessem vivas (partes em que aparece Tom Jobim, principalmente, soam como se fossem ainda contemporâneas). E esse ambiente ultrapassa os limites da película. Todas as entrevistas são tão reais e cheias de vida que é impossível não se agradar. Fora que a maioria é filmada nas próprias casas dos cantores, o que dá um tom ora intimista, ora espontâneo de uma agilidade e cumplicidade incrível, mas passa longe de ser um ‘emaranhado’ de informações, tudo é perfeitamente conduzido e realizado. O filme consegue ao mesmo tempo fugir do didático sem perder sua essência informativa.

E como não citar algumas passagens inéditas como a apresentação de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Netto e musicada pelo jovem Chico Buarque em um Teatro em Paris em meio aos anos sessenta? Ou Ismael Filha cantando ‘Se Você Jurar’? Tem Hilda Hilst, Cartola e Maria Bethânia. Uma explicação ilógica para a tropicália em Djavan vindo de Tatit. E Dorival Caymmi cantando ‘O Mar’? Ou seja, um mergulho profundo e sem tempo para fôlego na verdadeira popular música brasileira.

Poesia e música transitam livremente por todo o documentário e se unem para contar a verdadeira história do surgimento e constante mudança da sonoridade brasileira. Inteligente e não subestimando a capacidade intelectual do espectador, os oitenta e seis minutos são certeiros para mostrar esse gingado que atravessa fronteiras e simboliza a nação miscigenada. ‘Palavra (En) Cantada’ é a mistura perfeita entre o erudito e o popular e é o ‘guia’ que faltava para o orgulho dos documentários, da música e da poesia nacional.

(Palavra (En)cantada, Brasil, 2009) Diretora: Helena Solberg; Roteiristas: Marcio Debellian, Helena Solberg, Diana Vasconcellos; Elenco: Arnaldo Antunes, Maria Bethânia, Gustavo Black Alien, Chico Buarque de Hollanda

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