A Fita Branca (2009)

por Luis Galvão

Michael Haneke nunca tentou suavizar seus filmes, todos eles são fortes, cruéis e nos deixam uma impressão de perturbadora ao final. ‘A Fita Branca’ é uma espécie de espelho da Alemanha pré-nazista e o diretor austríaco não nos poupa de mostrar uma visão pessimista de uma sociedade a beira de uma revolução que mudou a história da humanidade.

O foco se desenvolve em uma pequena vila germânica às vésperas da Primeira Guerra Mundial e sua paz rotineira é perturbada por uma série de crimes misteriosos, que logo são seguidos de ações mais surpreendentes, como incendiar um celeiro ou torturar o filho do barão que sofre de um problema psicológico. Conhecemos então uma sociedade patriarcal, repressora e que esconde atos terríveis sob as quatro paredes das casas. Crianças são severamente castigadas, aprendem a temer os pais e desenvolvem a ‘semente’ de toda a revolta que explodiria anos depois.

Haneke encontra o equilíbrio perfeito entre drama e suspense. Enquanto tentamos desvendar os culpados dos delitos, outra questão – até mesmo maior que o mistério – é colocado em pauta: até onde os princípios humanos imperam sobre a educação familiar? Aqui temos um exemplo perfeito de personagens que encarnam uma espécie de ‘monstro’ na tela e tomam atitudes repugnantes, depreciadoras e abomináveis. O Pastor (Ulrich Tukur), citando apenas um, reprime todos os seus filhos de formas animalescas, e em nome dos ‘bons costumes’.

Auxiliado pela fotografia crua de Christian Berger, Haneke filma como se realmente tudo aquilo tivesse acontecido. Closes profundos, câmeras paradas, ruídos milimetricamente estudados, tudo é tão real que amedronta. O elenco (principalmente as crianças) foi também um grande acerto desse longa denso, que proporciona momentos de extrema  frieza – bem ao estilo do austríaco –  e expõe mazelas humanas desprezíveis e (pasmem!) não duvido se ainda forem atuais.

A Fita Branca (Das Weisse Band – Eine Deutsche Kindergeschichte, Áustria, Alemanha, França, Itália, 2009) Diretor/Roteirista: Michael Haneke; Elenco: Christian Friedel, Ernst Jacobi, Leonie Benesch, Ulrich Tukur, Ursina Lardi, Fion Mutert, Michael Kranz, Burghart Klaußner, Steffi Kühnert, Maria-Victoria Dragus; 144 min.
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