Screenplay: Nine (2009)

por Luis Galvão

Esse talvez tenha sido o quarto ou quinto roteiro de filme que eu já li, portanto, não tenho muita prática de avaliação. Porém, vou tentar passar para vocês um pouco do que eu achei dessa adaptação de Michael Tolkin e Anthony Minghella (que morreu ano passado, mas já tinha quase concluido o trabalho)

[Alguns spoilers, mas nada muito sério que vá atrapalhar quando lançarem o filme. Eu juro que não contei o final]

O trabalho foi a adaptação da peça de Arthur Kopit, com letra e música de  Maury Yeston, que já tinha sido uma adaptação do filme ‘8 1/2’ de Fellini roteirizado por Ennio Flaiano, Tullio Pinelli, Brunello Rondi e o próprio Federico. Assim que começa o texto somos levados a uma entrevista de Guido em que ele solta a frase que permeia todo o resto do texto: “A film is a dream.” E isso leva por água abaixo quem acreditava que os roteiristas iriam optar por outro caminho para mostrar os números musicais. Se em ‘Chicago’ tudo era do ponto de vista de Roxie Hart, aqui Guido Cortini é que vai visualizar os espetáculos e participar da maioria.

O texto consegue passar com fidelidade o que provavelmente iremos vê na tela. Passagens como “Guido, alone, cigarette hanging from the corner of his mouth, contemplates the studio, its turbulent set, in every sense a jumble of ideas.” nos dá uma idéia de como o diretor está perdido em seus próprios pensamentos e que, com a criatividade em baixa, vê o estúdio como uma selva a ser explorada. E a partir daqui que começamos a conhecer todas as mulheres que fazem parte da vida desse homem. Luisa (sua esposa), Carla (sua amante), Claudia (sua musa), Lilli (sua produtora), Stephanie (a repórter), Mama (sua mãe) e Saraghina (a prostituta). Todas são descritas como seres que apenas perturbam a mente já atrapalhada de Guido, e que conseguem interferir arduamente em seu trabalho.

O trama se desenvolve basicamente no estúdio de Cortini, que está para dirigir um novo filme, mas que não consegue desenvolver a trama certa, com toda a produção e discussão típica dos bastidores das filmagens. Os roteiristas, portanto, nos dão a chance de visualizar todo esse universo das produções que nós, espectadores, não conhecemos.

Viagens para Roma (que aqui é descrita como “Rome of La Dolce Vita, the Rome of Vespas, skinny ties, cool sunglasses, impossibly cool young people.” – uma adoração ao cinema) na esperança que a inspiração apareça, ela vai rever todas essas mulheres, seja em flashback ou em telefonemas, mas o que todas tem em comum é a adoração por esse homem. Outras canções se seguem, e o roteiro consegue passar, a partir de diálogos bem construídos, toda a tensão em que Guido se encontra. E pontos esperados como a apresentação de Lilli, Claudia e Luisa são descritos sem muitos detalhes, acredito que todo o impacto causado na tela será uma surpresa para todos. Já que Marshall tem como ajuda uma parte técnica invejável.

Com personagens bem descritos, incluindo não apenas as mulheres como também os outros dois amigos que o acompanham na maioria das vezes (Dante e Fausto), o roteiro ainda não consegue extrapolar o óbvio e traz um musical como se fosse um furação, com o centro em Guido, e todos os outros dependentes dele para progredirem. O que mais me chamou a atenção foi realmente isso, tudo está ali por causa do Cortini, e é ele que vai conduzir toda a trama e que vai participar de todos os números, e vai encerra o filme com uma espécie de metalinguagem bem apropriada. Se na tela isso vai funcionar, não saberemos até o próximo ano, mas que Michael Tolkin e Anthony Minghella conseguiram dá uma agilidade maior ao musical da Broadway, isso é claro, e que o ‘cinema’ é o grande homenageado aqui é mais que provado.

9/10
Roteiristas: Michael Tolkin e Anthony Minghella (“Nine – Filme”); Arthur Kopit e Maury Yeston (“Nine – Broadway Musical”)
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