À Deriva (2009)

por Luis Galvão

À Deriva

Se no post anterior eu digo que ‘Salve Geral!’ é um típico filme brasileiro, cheio de clichês de corrupção. ‘À Deriva’, do diretor pernambucano Heitor Dhalia, é totalmente o oposto do filme pré-indicado ao Oscar esse ano.

A narrativa sobre as descobertas da adolescente de 14 anos, Filipa (Laura Neiva, ótima revelação) é apenas o mote para as verdadeiras descobertas sobre conflitos bem mais difíceis de lidar do que a sexualidade na adolescência. Com uma família em crise (representada por uma dupla em sintonia de Débora Bloch e Vincent Cassel), Filipa começa a enxergar as coisas como elas realmente são: uma mãe que é quase alcoólatra, e um pai  que tem um caso com uma mulher bem mais nova. E tudo cai como uma cachoeira na cabeça da jovem, fazendo-a tomar escolhas precipitadas e arriscando tudo para recuperar o equilibro familiar.

A trama se desenvolve com reviravoltas verossímeis e metáforas explicativas, nos levando a um final poético e emocionante que nos acompanha ainda por muito tempo. Esse roteiro forte, e fora dos clichês tupiniquins, junto à trama que abusa de uma fotografia oitentista; de um cenário belo da praia de Búzios; e de, principalmente, uma trilha que sabe a hora da alegria e também da profunda solidão. Todos esses elementos em harmonia fazem desse filme um diferencial nas produções locais.

Dhalia, que já tinha mostrado seu potencial no ótimo ‘O Cheiro do Ralo’, mesmo mudando um pouco do seu cinema tradicional, se consagra como um grande diretor que sabe reunir um elenco afinado com um visual de tirar o fôlego, e nos dá o verdadeiro exemplo de que filmes brasileiros não são apenas sinônimos de violência, corrupção e favela, mas que no Brasil as belezas naturais são o cenário perfeito para tramas que abordam não só a natureza exuberante de nossas praias, mas também histórias que emocionam e conseguem debater sobre temas universais de traição, confiança e, principalmente, descobertas.

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