Spring Awakening (2006)

por Luis Galvão

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Spring Awakening” (ou Despertar da Primavera) é uma peça do alemão Frank Wedekind que foi escrita entre os anos de 1890 e 1891, porém foi encenada pela primeira vez apenas em 1906, por conta do seu “apelo sexual” como diziam. A peça critica a cultura de opressão sexual alemã no século XIX, no qual os jovens eram colocados em colégios internos e não tinham contato quase algum com o sexo oposto. É nesse contexto que a história do musical, baseado na peça, retrata: dois colégios separados cada qual com seus estudantes que desconhecem o mundo e começam a refletir sobre mudanças em seus corpos, mas não tem ninguém para tirar suas dúvidas, e os poucos adultos que existem no local os enganam e fogem de certos temas sexuais (algo que por incrível que pareça ainda acontece hoje).

Surge, então, um encontro inesperado em uma floresta entre Wendla e Melchior, e eles acabam por se apaixonar. A trama se desenrola com descobertas entre os outros alunos, pais que violentam filhas e essas não podem fazer nada, homossexuais que não sabem o que fazer, filhos rejeitados pelos pais, mortes e até mesmo suicídios. Uma trama forte para um elenco formado apenas de jovens na faixa dos 18 a 20 anos, e dois adultos (não nomeados).

Duncan Sheik foi o responsável por levar uma peça tão forte – e fazer dela um musical pop-rock – ao palco da Broadway. Ele teve a ajuda do letrista Steven Slater, que já trabalhava com ele a anos em outras peças, para criar, uma empolgante música que incorpora uma arte contemporânea (incluindo uma pequena banda rock em vez de uma orquestra) em um contexto dramático do teatro musical. As letras ressoam com a raiva, frustração, confusão, agitação, alegria, raiva, e, naturalmente, um pouco de luxúria que exala dos jovens em puberdade. O musical foi dirigido pelo diretor Michael Mayer (premiado com um Tony por sua direção em “Thoroughly Modern Millie”) e coreografia do famoso Bill T. Jones.

Assim que a peça começa a Lea Michele (que estréia ‘Glee’) entoa as primeiras notas de “Mamma Who Bore Me”, e a gente começa a entrar nesse mundo onde os jovens não agüentam mais ser enganado por seus pais, que escondem até mesmo da onde vêm os filhos. E logo suas amigas se juntam a ela para reclamar sobre essa repressão que sofre (“Mamma Who Bore Me – Reprise”). Essas duas músicas soam como um protesto, e são umas das melhores do álbum que retratam essa opressão do séc. XIX.

Na escola para meninos, eles apanham dos professores caso errem alguma coisa, ou respondam errado, e Melchior, na tentativa de defender seu amigo Moritz, o professor acaba batendo nele. É quando ele também nota que as coisas deveriam mudar, daí entoam mais um grito de protesto contra essa sociedade (“All that’s known”) Uma bela música com versos sobre confiar plenamente nos adultos, como ele diz: “Tudo o que ele dizem/ é para confiar no que está escrito”.

A música seguinte (“The Bitch of Living), uma das mais legais em minha opinião, os meninos confessam que tem sonhos eróticos, e Melchior que leu sobre isso em algum livro, pede que todos contem o que acontecem nos sonhos, isso numa música pop-rock super legal.  “My Junk” logo em seguida alterna cenas das meninas dizendo como querem se casar com Melchior, enquanto um dos meninos de masturba no colégio olhando para um poste de sua professora de piano, mas tudo isso é tratado com tanta naturalidade, e com uma música tão legal, que Sheik cumpre o papel que colocar temas tão “sujos” de uma forma muito normal e super melódica.

A partir daí baladas românticas como “Touch Me” onde todos (meninos e meninas) declaram como querem ser tocado, cada um de seus jeitos. Músicas como “The Word of Your Body” onde Melchior e Wendla se encontram pela primeira vez e resume toda sua paixão em seus corpos. “The Dark I Know Well” que uma das meninas declara que é estuprada pelo seu pai, ele lhe bate depois. e “And Then There Were None” que a mãe de Melchior explica para Moritz sobre algumas coisas da vida são ótimas, e passam perfeitamente rítmicas. Ora baladas “românticas” ora rock-pop digno das melhores bandas. E ao final do primeiro ato “I Believe” concretiza o desejo sexual de Melchior e Wendla. Uma linda música de encerramento.

No segundo ato Wendla se descobre grávida, e a mãe a obriga a abortar,no entanto Wendla acaba morrendo, assim como Mortiz, que sofre pressão dos pais, suicida-se. E Melchior, desesperado por perder seus dois amores, tenta morrer, mas é aconselhado pelos espíritos dos amigos que a coisa certa a fazer é encara a vida e seguir a diante. E isso que ele faz.

Todas as musicas delineiam uma trama super legal com uma pitada de rock, cantores perfeitos, vozes que se misturam e se destacam. Uma sonoridade única. Spring é, portanto uma bela obra musical que deve ser apreciada por muitos anos ainda. Esse ano, por exemplo, estreou uma versão aqui no Brasil, dirigida pelos competentes Möller e Botelho, que é muito elegiada, até mesmo pelos criadores.  E surgiu a um tempinho a especulação de um filme baseado no musical, tomara que saia do papel, e no imdb diz que é para 2011. Esperaremos até lá.

Tony’s da Peça

  • Best Musical
  • Best Book of a Musical
  • Best Original Score (Music and/or Lyrics)
  • Written for the Theatre
  • Best Performance by a Featured Actor in a Musical (John Gallagher Jr.)
  • Best Direction of a Musical
  • Best Choreography
  • Best Orchestrations
  • Best Lighting Design of a Musical

E indicado nas categorias de

  • Best Performance by a Leading Actor in a Musical (Jonathan Groff)
  • Best Scenic Design of a Musical (Christine Jones)
  • Best Costume Design of a Musical (Susan Hilferty)