galvanismo

Mês: fevereiro, 2012

Para não dizer que não falei do Oscar

Desde ano passado, gosto do jantar. Esse ano, para não perder o costume. E Meryl? Até The Artist pode ter ganho que eu não me importo, é por ela que ainda vale a pena acreditar no cinema.

As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne

Qual a relação existente entre uma animação verossímil que atinge e retrata com fidelidade um aspecto cultural (mesmo que em traços simples de um desenho) e uma aventura que utiliza de todos os artifícios possíveis para entreter? E, o que se paga para poder filmar o que quiser, do jeito que quiser e sem limites de filmagem? Quando Spielberg disse que esperaria o momento exato para fazer Tintim, acho que, agora, sei o motivo.

O enredo, tirado de uma das histórias de Hergé, narra o encontro de Tintim com o Capitão Haddock e a busca pelo tal segredo de um navio da família do Capitão. Simples, sem grandes firulas narrativas, o longa preza pela aventura. E quando faz essa escolha, renega, de forma inesperada, a inteligência do personagem (o que deveria, em tese, ser o principal atrativo para qualquer fã dos quadrinhos). Spielberg coloca tantas cenas de aventuras ‘filmadas’ de modo impossível para um ser humano que parece que, enquanto estava se divertindo com os remelexos da câmera, esqueceu que o público poderia ficar tonto de tantos giros e saltos pelo ar.

Esse fato, porém, não tira o mérito do filme que está no nascedouro da amizade entre os dois ‘principais’ personagens e a aparição de tantos outros que habitavam a mente de forma linear, sem a dimensão e ‘profundidade’ que um 3D pode realizar. De fato, o embarque em terceira dimensão é dispensável, mas atrativo para as platéias.

Voltando à pergunta que iniciei o texto, recordo-me de algumas animações da Pixar, Dreamwork ou Sony que são simplesmente inverossímeis, mas que agradam multidões (de crítica à público). Tintim deve ser tratado como tal animação e não como algo que pudesse fugir desses padrões e revolucionar o gênero. E Spielberg esperou tanto tempo para produzir esse filme, apenas para poder brincar o quanto quisesse com as mil cenas de ação tratadas. Espero que na continuação esse recurso seja utilizado com mais parcimônia e que possamos, realmente, ver a inteligência de Tintim sendo utilizada.

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As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne
Dir. Steven Spielberg

Roberta Sá (Segunda Pele, 2012)

Roberta Sá está mais madura e segura do que nunca. Ao longo dos 40 minutos do seu novo álbum, Segunda Pele, ela passeia por diversos ritmos (de frevo de Deixa Sangrar ao reggae final de No Arrebol) com uma facilidade surpreendente. E, mais do que isso, ela consegue criar um disco conciso, único e com eventos encadeados de forma perfeita. Nada parece fora do lugar, pelo contrário, o processo criativo de evolução das músicas parece ter sido pensado desde o princípio nesse arranjo – e você pode comprovar com a casadinha Bem a Sós e o Nego e Eu, uma cadência espetacular!.

Ela ainda se dá o luxo de ter Jorge Drexler (o cara que já ganhou o Oscar por Al Otro Lado Del Rio) contando uma das faixas mais legais, Esquirias. O estilo, que antes era muito pautado pelo samba contemporâneo, está mais leve, passeando de forma segura por qualquer ritmo. Coisa que poucas cantoras se arriscam hoje em dia. E, finalmente, sua postura me faz lembrar grandes estrelas da música brasileira (Gal Costa, em uma clara semelhança de vozes, mas também Clara Nunes, Bethânia e outras grandes cantoras que se encaixam perfeitamente em qualquer ritmo).

Fiquem com o gostinho da apresentação que ela fez no Galo da Madrugada junto com Fafá de Belém cantando Deixa Sangrar. Vale a pena!

A Separação

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Li, por esses dias, que a chave de indicação para Filme Estrangeiro é a universalidade do tema abordado. Fazendo um breve retrospecto, temos o japonês lírico A Partida, o alemão A Vida dos Outros e até mesmo um Almodóvar. Longas que tem características universais de autodescoberta e jornadas conflituosas. A Separação, filme também indicado ao Oscar, parece ter uma vantagem para ser premiado exatamente por isso. Não é um filme ‘apenas’ iraniano, é um filme do mundo.

Asghar Farhadi faz um belo trabalho na construção do casal que quer e separar, mas por leis locais, tem dificuldade. Cada um tem seus motivos e não ficamos do lado de nenhum, exatamente pelo olhar holístico de Farhadi sobre o drama. Acrescente alguns outro enredos paralelos interessantes e você tem um bom filme que se passar, quase totalmente, em uma pequena sala improvisada. Não é um filme jurídico (por mais que o teor sempre seja evidente), mas traz ótimas discussões sobre um simples acordo entre casais com consequências dramáticas.

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A Separação
Dir. Asghar Farhadi

Sherlock Holmes 2: O Jogo das Sombras

Porque fazer de um filme bom de ação uma franquia? Porque, também, manter exatamente o mesmo estilo de cinema, sem nenhuma pitada de inovação? Preguiça. Sherlock Holmes 2: O Jogo das Sombras é preguiçoso, Guy Ritchie e Robert Downey Jr também. Jared Harris, Jude Law e Stephen Fry, pelo contrário, dão eu melhor. Assim como a direção de arte cuidadosa e a trilha das mãos de Zimmer. O resto, porém, pura repetição com poucas pitadas de genialidade. Algumas coisas beiram o deselegante e o constrangimento e, para completar, Guy ainda subestima a inteligência e poder de análise do espectador. E Noomi Rapace foi uma péssima escolha, tanto a atriz quanto o personagem, Rachel McAdams é, facilmente, superior.

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Sherlock Holmes 2: O Jogo das Sombras
Dir. Guy Ritche