Quando um casal com os mesmos problemas e a mesma paixão por chocolate se encontram, o que pode resultar? Na comédia (no sentido mais singelo da palavra), Românticos Anônimos é um daqueles filmes franceses que com a receita correta, chega em qualquer lugar do mundo com o mesmo frescor de sua nacionalidade.

Abdicando de qualquer humor negro que poderia ser utilizado, Jean-Pierre recrutou dois atores com características físicas complementares e traçou a personalidade de ambos sob um mesmo olhar. Pessoas extremamente tímidas, que estão com suas carreiras decaindo (ele, um dono de uma fabrica de chocolate quase falida e ela, uma doceira espetacular que não consegue se relacionar) e coloca uma pitada de amor desde o princípio.

É claro que todo clichê amoroso está presente, mas as cores, o elenco e a falsa crença que o mundo é tão bom, bonito e delicioso quanto o filme, conseguem surpreender agradavelmente e até um pouco piegas demais para alguém se identificar. Mas, às vezes, é a pura realidade.

Les Emotifs Anonymes de Jean-Pierre Améris ***

imageExistem alguns bons road movies brasileiros. Do clássico Central do Brasil à cômica junção de esquetes com Muita Calma Nessa Hora. Muitos são desprezíveis, mas alguns se destacam pelo claro esforço em não apenas mostrar uma jornada pessoal (ou de um grupo), mas acrescentar algo em relação à construção dos personagens – tanto os que passam quanto os que ficam. Estrada para Ythaca é um claro exemplo de como as coisas, muitas vezes fora do padrão, funcionam quando feitos por várias talentosas mãos.

Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes se juntaram em família para mostrar um filme biográfico e metalingüístico sobre a amizade. Tudo começa em uma rodada de bar, onde as coisas acontecem se que você note, e eles decidem partir para Ythaca. A partida e o caminho são feitos de pequenos pedaços de referências cinéfilas e culturais que precisam ser digeridas anteriormente para não atormentar e fazer com que o espectador não entenda as características do filme.

Os quatro compartilham e – muito maior que o próprio filme – mudam. Tentam, em vão, transceder as paredes do cinema robusto para mostrar uma história crua, sem fios que ligam facilmente os acontecimentos e que, no final das contas, mostram que eles conhecem de cinema, compartilham uma mesma paixão e se utilizou de todos os artifícios nos bastidores, para transformar Estrada Para Ythaca um filme quase perdido, que será descoberto no futuro.

Estrada para Ythaca de Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes

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Como de costume, a Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos, surgida em 2007 com o objetivo inicial de unificar e organizar blogs de cinema, sendo outro passo rumo ao respeito e ao reconhecimento destes como veículos de comunicação feitos por competentes formadores de opinião. Criada por Otavio Almeida e com a colaboração de Kamila Azevedo e Vinícius Pereira (os quais a presidem), atualmente ela é composta por 74 membros.  Além de listas e rankings mensais, todos participam da premiação anual, o Blog de Ouro, a qual possui 21 categorias.

Primeiro, devo parabenizar todos os envolvidos no gerenciamento da SBBC e do Blog de Ouro (principalmente o conterrâneo Vinícius Pereira), um trabalho, no mínimo, cansativo e que sem a dedicação dessas pessoas, não existiria. É uma grande família que compartilha e – mais importante – compreende as diversas opiniões dos 74 membros e que possibilita a criação de elos que transcendem a internet e os blogs. Meu muito obrigado. Depois do clique, minha cédula de votação do Blog de Ouro 2012 e a esperança que muitos dos indicados por mim, apareçam na seleção oficial.

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Olivia Thirlby e Emile Hirsch em cena de A Hora da Escuridão

Como primeiro filme de ‘terror’ do ano, começamos 2012 com o pé esquerdo. Feixes de luz como alienígenas nunca serão um acerto no século XXI. Temos a tecnologia necessária para criar um universo todo novo e alguns filmes ainda utilizam tecnologia trash dos anos 80 para tentar assustar? Infelizmente, a plateia está um pouco mais exigente que os últimos anos. E pena para Emile Hirsch que (depois de Na Natureza Selvagem sumiu) voltou com isso. Temas apocalípticos, roteiro repetitivo, atores que não conseguem passar verossimilhança. Já cotado como um dos piores do ano, mesmo que as expectativas já fossem muito baixas, consegue, surpreendentemente, ser pior do que você imagina.

A Hora da Escuridão de Chris Gorak 

Filmes como esse não deveriam ser comentados. Mas minha curiosidade por musicais supera os avisos que me foram dado e eu fui aberto à mudanças assistir Burlesque. Ledo engano. O que eu esperava era apenas um mínimo de respeito aos grandes musicais que realmente se passavam em casas noturnas com personages femininas que cantam (e não apenas gritam) e uma história, pelo menos, atraente. Burlesque simplesmente não oferece nada disso. Falta ritmo, faltam músicas boas, falta um apreço maior àqueles filmes que ele tenta – em vão – fazer referências. Cabaret é a principal delas, mas não exclui toda filmografia de Rob Marshall (sim, eu continuo gostando muito de seus filmes, inclusive Nine), Kenny Ortega e qualquer outro diretor contemporâneo que já se arriscou no gênero.

O que falar, então, das interpretações? Não conheço a história de Cher, mas sei que aquela boca simplesmente não é dela! Prejudica a dicção e a própria estética do filme (que já não é lá essas coisas). Também não sei se o voz dela sempre foi esse tom grosso, mas até mesmo a música ganhadora do Globo de Ouro é um desafio para entender. Christina Aguilera queria, no mínimo, ter um filme em sua vida. Se arriscou, cometeu as gafes de sempre, a falta de técnica na dança e se armou apenas com a voz para tentar impressionar. De fato, as músicas cantadas por ela são melhores do que as de Cher, mas ainda em um nível muito abaixo do esperado.

Se você pensar, ainda, no desperdício de dois atores envolvidos e os únicos sobreviventes desse naufrágio chamado Burlesque – Stanley Tucci e Alan Cumming – é desprezível. Como um ator do nível de Alan, que já interpretou memoravelmente Emcee em um revival de Cabaret, tem apenas espaço para uma brincadeira de mal gosto no palco? Até a simpática Kristen Bell (que depois de Veronica Mars, nunca escolheu bem os filmes em que participa), Peter Gallagher e Eric Dane estão péssimos. E depois que descobrir que o roteiro tem a mão de Diablo Cody, estou achando que Juno foi apenas um tiro no escuro que deu certo (Jennifer’s Body e Burlesque estão aí para comprovar isso). Quando Spilberg escolheu Steve Antin para fazer o cara chato Troy de The Gonnies, ele não imaginaria que o irmão da fundadora das Pussycat Doll (Robin Antin) no futuro tentaria fazer um musical e acabaria dando um tiro no pé não só dele, mas de todos os envolvidos.

Burlesque de Steve Robin

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